Dados de produto que agentes conseguem ler
Ficha de produto escrita para o olho humano some na comparação automática. Veja como estruturar atributos, estoque, preço e política para consumo por máquina.
A maioria das fichas de produto do e-commerce brasileiro foi escrita para uma pessoa que olha. Título com o máximo de palavra-chave, três fotos, uma descrição em tom de anúncio e — quando existe — uma tabela de medidas em JPG.
Para um comprador humano isso funciona razoavelmente bem, porque humano infere. Ele vê a foto, lê “tamanho M” e conclui. Um agente não infere: ele extrai ou descarta. E quando descarta, você não fica em segundo lugar na comparação; você não aparece nela.
A boa notícia é que o conserto é prosaico e acumulativo. É trabalho de catálogo, não de tecnologia nova.
Identidade: o produto precisa ter nome de máquina
Antes de qualquer atributo, o agente precisa saber de que coisa estamos falando e conseguir reconhecer a mesma coisa em outra loja.
- Identificador interno estável. Um SKU que nunca muda de significado. Reaproveitar código de produto descontinuado é o tipo de decisão que envenena histórico por anos.
- Código do fabricante, quando existir. Para item industrializado, é o que permite comparar seu anúncio com o de outra loja sem adivinhação.
- Marca e modelo em campos separados, não amontoados no título.
- Relação entre pai e variante explícita. O produto tem variantes; cada variante tem identificador, preço, estoque e medidas próprios.
O anti-padrão clássico: Tênis Corrida Masculino Leve Confortável Azul 42 Original Promoção. Tudo que importa ali — cor, numeração, categoria — está preso dentro de uma string, misturado com adjetivo de vendedor. Dá para tentar reconstruir isso com heurística, mas quem consome o dado não tem obrigação de tentar, e normalmente não tenta.
Atributos: valor, unidade e tipo — sempre os três
Esta é a regra que resolve a maior parte dos problemas: todo atributo mensurável vira número mais unidade, em campo próprio.
Não “peso: leve”. Não “peso: 1,2”. Mas peso com valor 1200 e unidade g, ou valor 1.2 e unidade kg, declarado.
Vale para dimensão, volume, potência, voltagem, capacidade, comprimento de cabo, temperatura de operação, prazo de validade. E vale principalmente para o que é decisivo na categoria: em eletrodoméstico, voltagem; em roupa, medida real em centímetros; em ração, peso do pacote; em móvel, dimensão montada e dimensão da embalagem.
Três cuidados que economizam retrabalho:
- Padronize a unidade dentro da categoria. Metade dos produtos em gramas e metade em quilos força conversão em quem lê e produz erro de comparação.
- Separe atributo de afirmação de marketing. “Ultraleve” não é atributo. É o valor do peso que é.
- Atributo vazio é melhor que atributo errado. Preencher com “não informado”, “consulte” ou “vide descrição” é pior que deixar ausente, porque vira ruído que parece dado.
Disponibilidade: o dado que mais custa quando está errado
Estoque é o campo em que a inconsistência sai mais caro, porque ela só aparece depois da compra.
O que uma ficha legível por máquina precisa expor:
- Estado atual, consultável em tempo quase real, não em cache da madrugada.
- Quantidade, quando possível. “Tem 2” leva a uma decisão diferente de “tem 400”.
- Prazo de reposição, quando o item está esgotado, em vez de sumir da existência.
- Disponibilidade por região, quando o atendimento não é nacional.
- Reserva temporária com expiração, para o intervalo entre decidir e pagar.
Com cliente humano, vender o que não tem gera desculpa e estorno. Com agente, gera cancelamento registrado — e cancelamento entra no histórico que pesa na próxima escolha. É a lógica de reputação descrita em agent commerce, aplicada ao dado mais banal da operação.
Preço: o número sozinho não resolve
Preço legível por máquina é preço com contexto:
- Moeda declarada.
- Impostos: incluídos ou não, e quais.
- Diferença por forma de pagamento, quando existe — à vista, parcelado, desconto no Pix.
- Validade da condição, para o agente saber se ainda vale.
- Preço de referência e desconto, separados, sem inflar o “de” para inventar um “por”.
- Frete e prazo cotáveis à parte, porque o critério real do comprador é custo total entregue.
Este último item é o que mais elimina loja da comparação. Se o frete só aparece após cadastro, quem compara assume o pior caso ou pula sua oferta. É a mesma barreira analisada em checkout para agentes, vista do lado do catálogo.
Política de devolução e garantia como dado, não como página
Aqui está a maior oportunidade subaproveitada. Quase toda loja tem uma página de trocas, e quase nenhuma tem a política em formato que uma máquina consiga aplicar.
O mínimo, por produto ou por categoria:
- Prazo de devolução em dias, contado a partir de quê.
- Condição exigida: lacrado, sem uso, com etiqueta, embalagem original.
- Quem paga o retorno, por motivo — arrependimento, defeito, erro da loja.
- Método de reembolso e prazo estimado.
- Exceções por categoria: perecível, personalizado, higiene íntima, software.
- Garantia legal e garantia do fabricante em campos distintos, com prazos separados.
Por que isso vende? Porque o agente pondera risco. Diante de duas ofertas parecidas, ele prefere a que tem política explícita — a ambígua vira desconto implícito no seu preço. Loja com política clara compete cobrando mais.
Os formatos: três saídas para o mesmo dado
Feito o trabalho de base, a exposição é a parte mecânica. Na prática são três saídas, e elas não competem:
Marcação na página. O vocabulário de dados estruturados de Schema.org cobre produto, oferta, disponibilidade, envio e política de devolução, e é o que a documentação de dados estruturados de produto do Google pede. Resolve descoberta e leitura por quem chega pela página.
Feed de catálogo. Arquivo ou endpoint que entrega o catálogo inteiro com paginação e marca de atualização. É o que permite a alguém manter uma cópia sua sem raspar o site item a item.
API de consulta. O que responde a pergunta pontual no momento da decisão: este item, agora, para este CEP. Nenhum feed substitui isso, porque estoque e preço mudam durante o dia.
O erro comum é escolher uma e achar que cobriu. Marcação sem API deixa o agente com dado velho na hora de decidir; API sem feed obriga quem compara a bater no seu servidor produto a produto — e aí você acaba bloqueando por excesso de requisição o mesmo agente que queria vender.
Mídia e texto continuam importando (de outro jeito)
Nada disso quer dizer que foto e descrição viraram enfeite.
Foto precisa de texto alternativo que descreva o que está na imagem, não “produto 1”. E precisa parar de carregar informação exclusiva: se a medida, a voltagem ou a composição só existem dentro do JPG, elas não existem para quem consome dado — nem para quem usa leitor de tela.
Descrição continua valiosa desde que descreva. Texto que explica uso, compatibilidade, cuidado e limitação alimenta busca semântica e responde dúvida sem humano. Texto que só empilha adjetivo não ajuda ninguém e polui a extração. Essa camada conversa direto com catálogo e busca de produtos: a mesma frase que explica bem para uma pessoa costuma ser a que indexa bem para uma máquina.
Higiene contínua: o catálogo apodrece sozinho
Catálogo não é projeto, é manutenção. Três hábitos que seguram a qualidade:
- Campo obrigatório por categoria. Roupa sem medida não publica. Eletrônico sem voltagem não publica. A validação precisa estar no cadastro, não numa planilha de auditoria trimestral.
- Data de atualização visível em cada registro, para quem lê saber o que está lendo.
- Relatório de lacuna, semanal, com os produtos que faltam atributo decisivo — ordenado por faturamento, não por ordem alfabética.
Esse último ponto é o que transforma a tarefa em algo executável. Corrigir o catálogo inteiro é um projeto que nunca começa; corrigir os cem produtos que respondem pela maior parte da receita é uma semana de trabalho.
Onde isso encontra o seu próprio agente
Vale fechar pelo lado de dentro. Tudo aqui é pré-requisito para o agente que você opera — aquele que responde no chat, recomenda, calcula frete e resolve pós-venda. Um agente vertical só é tão bom quanto o catálogo que ele consulta: com ficha ruim, ele responde com fluência e erra o dado, que é o pior resultado possível, porque soa confiável.
Ou seja, arrumar ficha de produto não é preparação para um futuro incerto. É a condição para a automação que você já está tentando fazer hoje.
O que levar desta leitura
Ficha legível por máquina tem cinco camadas: identidade estável, atributo com unidade, disponibilidade autoritativa, preço com contexto e política aplicável como dado. Exposta em marcação, em feed e em API — as três, porque cada uma responde a uma pergunta diferente.
Se for para começar por um item só, comece por tirar informação de dentro da imagem e do título. É o de menor custo, o de maior efeito imediato, e o que mais melhora também a vida de quem ainda compra olhando.